Valeu-me em 1958, meu pai ter decidido ir juntar-se à minha mãe. Assim, neste mesmo ano viajamos de barco para a cidade da Beira e dali de comboio rumo a Vila Pery. Deixamos para trás a vila no velho Ford Taunus e percorridos cerca de 3Km entramos numa picada de terra muito vermelha levantando uma poeira que à mistura com o suor que nos começava a escorrer pelo corpo sujando a roupa e o corpo, e nos tornava indolentes.A picada era somente os sulcos que os carros deixavam ao passar, isto sem contar com os grandes buracos que fazia estremecer o carro e nos fazia saltar do acento. Fomos viver para uma casa construída pelo meu irmão mais velho José, com blocos de cimento, num terreno situado nas traseiras do campo de aviação e que distava cerca de cinco quilómetros da vila. Não tinha portas e janelas. O telhado era de folhas de zinco, sem electricidade, água canalizada e saneamento. O poço de água distava cerca de 500 metros. A água era carregada diariamente por garrafões de cinco litros e por latas de vinte à cabeça. Criavam-se porcos e cabritos que andavam à solta e havia um grande capoeiro de galinhas. Minha mãe também se dedicava à agricultura e o meu pai trabalhava numa serração de madeiras em Gôndola. Esta serração distava cerca de 30 Km. Meu pai percorria esta distância de ida e volta todos os dias numa bicicleta de corrida.Uma certa noite, enquanto todos dormiam, meu pai viu sair uma luzinha na sala. Pensando que um dos filhos estaria a fumar, perguntou ?és tu rapaz?. Como não obtivera resposta levantou-se para ver quem era. Um indígina que aproveitando o facto da casa não possuir portas, se sentara a fumar na sala. Então gritou bem alto ?ladrão, ladrão?. O alvoroço foi total. O indivíduo tinha-se escapulido na escuridão. Minha irmã Rosa escondera-se debaixo da cama e eu dentro de um guarda-roupa. Está aqui, está aqui, gritava meu irmão José ao mesmo tempo que se preparava para me agarrar confundindo-me com o intruso. Está debaixo da caaama, ouvi um barulho, gritava meu irmão Adelino. Sou eu, sou eu, gritava minha irmã Rosa. Acendam uma vela, gritava meu pai. Foi uma confusão total. Naquela província não se sabia de ladrões. Havia uma ou outra ocorrência sem significado. O pânico avassalara as nossas mentes. O dia começara a raiar depois de uma noite mal dormida e meu pai prometera que na primeira oportunidade iria comprar madeira para construir uma porta.Em 1959 frequentava a escola primária de Vila Pery na terceira classe. O deslocamento para a escola e seu regresso era a pé, fazia por isso um percurso de dez quilómetros diários. O insucesso escolar continuava com a professora a colocar-me na última carteira. Tinha uma filha como aluna. Como a residência dela era pegada à escola passava quase todo o tempo metida na cozinha e encarregava a filha de escrever os nomes no quadro daqueles que se portavam mal. Eu era sempre a vítima. Comia por ter cão e por não ter. O meu nome fazia sempre parte da lista pela simples razão dela (filha) sentir prazer nisso e delirava de alegria juntamente com as amigas quando a mãe me batia.Em 1960 meus pais mudaram-se para Gondola. Minha mãe e meu irmão Adelino trabalhavam na fábrica de têxteis (Textáfrica). Ambos utilizavam como meio de transporte entre a fábrica e Gondola uma motorizada conduzida pelo meu irmão Adelino e alguns meses depois chegou a fatídica e pior das notícias. Minha mãe tinha caído da motorizada no trajecto para casa. Foi socorrida muito tardiamente por um automobilista, vindo a falecer no hospital.Tuas mãos quentes me conduziam. A vida surgia para ser feita, bela e drástica como lhe cabe! suores, dores, sofrimentos. Palmo a palmo trilhastes, sonhastes, sentistes, chorastes. Agora, aqui, ao teu lado, vendo e sentindo teu cadáver pálido e frio, ponho sobre as tuas minhas mãos quentes. Dói-me estar só, o silêncio se impõe, uma névoa seca envolve meu caminho... Todos te elogiavam, menos eu. Todos te ajudavam, menos eu. Todos te amavam, menos eu. Com o passar do tempo, todos te esqueceram, menos eu!Em 1961 fui internado no colégio de freiras St Clara, (Jécua) Manica, onde a minha irmã Rosa também se encontrava. Ali, os hábitos eram muito rígidos: os alunos levantavam-se às 6 da manhã e havia regras para tudo e hierarquias bem definidas. Depressa fui considerado um bom aluno e adorava passar horas a jogar à bola ou às escondidas com os colegas. Adorava desenhar, era algo que me dava muito prazer e para o qual tinha muito jeito. Lembro-me de desenhar o presépio a giz no quadro, na época de Natal (parecia um autêntico postal). O desenho ficava no quadro durante as férias e quando recomeçavam as aulas, a irmã superiora dizia que era uma tristeza ver as figuras a serem apagadas; Fiz o exame da quarta classe com a classificação de Distinção. No mesmo ano fui submetido aos exames de acesso ao liceu e da escola técnica na cidade da Beira. Passei nos dois exames. Fui parar ao liceu com outro género de colegas. Por momentos detestei a mudança mas fui aprendendo a lidar com as cicatrizes que o tempo nos guarda. Meu pai, devido a dificuldades monetárias deixou de me visitar e pagar as mensalidades. Apercebi-me que as freiras não estavam a tratar-me como até ali e criticavam junto de professores contratados, a minha situação. Comecei a isolar-me e reflectia sobre o que me rodeava. Um dia, como em tudo na vida, a minha rotina teve um triste final. Aproveitando umas curtas férias, abandonei o colégio e os hábitos. Deixei os colegas para trás e voltei para junto dos meus irmãos. Ao vislumbrar a silhueta familiar, retive-me num segundo em sensações tão longínquas, como doces no seu tempo e espaço. Teria passado meses ou anos? Perdera-me na noção do tempo que dispara à velocidade de uma bala. Um dia, meu irmão Adelino juntamente com cerca de 10 amigos resolve dar um passeio de motorizada (tipo motares da época) desde Vila Pery até Untali, no Zimbabué antiga Rhodésia, o que era habitual aos fins-de-semana. Eu costumava montar uma motorizada da marca FLORETE que pertencia ao meu irmão José. Devido à minha idade não me deixaram participar no passeio, porém, à revelia, fui atrás deles tendo-os perdido de vista.Não desisti e há cerca de 60 Km, o tubo de escape caiu e como estava muito quente e não me queria atrasar, abandonei-o. Continuei a perseguição passando por Manica, e como já não os conseguia ver, resolvi ir visitar os amigos ao colégio.Pelo tubo de escape roncava um ruído enternecedor, mesmo assim, resolvi ir até a fronteira. Utilizei um caminho diferente que atravessava a vila de Machipanda e cuja estrada dava acesso à fronteira pelo seu interior, isto é, entrava na terra de ninguém. Quem tomava conta do portão do lado português eram dois cipaios. Perguntei-lhes se não tinham visto um grupo de motares que queriam visitar Untali e responderam Há si, muito menino nos mota. Eles não passar. Chefe dizer, todo você volta no trás. Logo compreendi que não tinham sido autorizados visitar Untali e decidi perguntar se me deixavam passar o que eles responderam Hé, tem que ir dentro pedir no chefe Há! Ali dentro está o chefe? si menino, dentro .
Eu, meu irmão Adelino e minha irmã Rosa
Vila Pery 1958