Cerca de um mês depois, eu e meu irmão adoecemos. Alguma amargura, algum desencanto e até algum desespero começou, por esta altura, a tomar conta de mim. Retirei-me saudoso daquele lugar mas muito triste por ter de me separar do meu pai mais uma vez. Foi o regresso a Vila Pery mas ainda hoje me lembro que convivi absorvido daquele ar misterioso, aquele feitiço que África exerce em todos os que com ela convivem...Fui à fábrica onde trabalhara para receber um mês de salário em dívida. Fui ter com a minha irmã Ester que me recebeu em casa. Arranjei emprego numa casa comercial de drogaria onde auferia 1.000$00 mensais e voltei a ser aceite no cinema como arrumador. Alguns meses depois a minha irmã e seu marido emigram para a África do Sul, tendo eu e o meu irmão Adelino ficado a tomar conta da casa.Cerca de quatro meses depois, meu pai irrompeu pela porta a dentro dizendo que tivera de fugir. Tinham-lhe pegado fogo à serração e seus haveres. Eu devia ter pressentido que a continuação do meu pai naquela serração era de grande risco, mas o que eu não podia advinhar é que tivesse um desfecho assim. Ele estava entediado... O céu estava cinzento, assim como seu coração. Desse jeito, parecia que a natureza compartilhava de seus sentimentos. Por essa razão sentia-se muito desanimado... Não era um motivo qualquer. Foi exatamente a causa de sua agonia... Começa a beber demasiado vinho, normalmente pelo gargalo do garrafão e de pouco se alimentava. Um dia, pelo meio-dia, regressava a casa com o meu irmão, quando deparamos com ele sentado no sofá, com problemas de respiração. Meu irmão tenta reanimá-lo e leva-o para a cama. Eu, em correria tresloucada vou à casa do vizinho pedir-lhe para o transportar ao hospital. Meu Deus! Meu pai nunca tivera sérios problemas de saúde, para além do dia que foi internado no hospital da Beira por tentativa de envenenamento, por parte do cozinheiro da serração! Tentei controlar-me. Talvez não seja nada de muito grave. Meu Pai era tão saudável. Sempre foi. E a vida dele parou no momento em que os meus olhos encontraram os do meu irmão Adelino. Parou ali, a sua vida. Meu Pai tinha 48 anos. Quarenta e oito anos não é idade para morrer. Nenhuma frase explica. Nenhuma palavra consola. Atirei-me para a cama no quarto escuro e gritei até poder só chorar. Depois chorei até não poder mais. Até ficar vazio. A sala da morgue estava numa semi-obscuridade. De cabeça baixa, lentamente, dirigi-me ao caixão. Pousei uma flor. Depois, sempre de cabeça baixa, colei-me a uma parede e deslizei para um canto. Não conseguia ver-lhe o rosto. Percebi que meu irmão chorava porque o via. O tempo arrastava o silêncio pesado como chumbo. Depois, ergui um pouco o rosto e percorri com os olhos, da direita para a esquerda, uma a uma, as pessoas que estavam na sala. Agora mais que nunca, tinha que seguir em frente e evitar tropeçar. Tinha que expressar meus sentimentos, de fugir dos problemas e evitar cair num abismo! Não devia ter receio do destino, do dia de amanhã. Vendemos todo o recheio da casa e regressamos a Lourenço Marques. Iria completar os meus 16 anos de idade dali a dias.(15/06/1963) De ti, MANICA E SOFALA, desse tempo, recordo o perfume e a cor, a terra vermelha, cheirosa quando chovia, o verde, as flores ? ah! aquele lilás dos jacarandás que te pintava as copas das árvores e te atapetava o chão, das mangas verdes salpicadas com sal com o seu caroço virgem e branco. Tudo me fazia lembrar, sentir, o cântico das cigarras à hora do meio-dia...Depois fui crescendo, muitas vezes até por aí pernoitando. Conhecia-te bem: desde a Beira, Gondola, Soalpo, Textáfrica, Vila Pery, Vila de Manica, Machipanda e colégio de Jécua...E... passaram os anos e eu sempre por ti passando e sempre por ti ficando, sempre que podia...Não eram precisas justificações para dar um saltinho ao sporting club: ir jogar matraquilhos, das matinés ao domingo, ir simplesmente passear.
VILA PERY
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