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Em Lourenço Marques fui trabalhar numa cantina por detrás da Praça de Touros, cercada por becos infindáveis e carreiros de areia entre as palhotas. Trabalhava das 05H00 até 23H00 e folgava à quarta-feira de tarde. Tinha como vencimento 500$00, comida e dormida. Eram muitas horas de trabalho. O lema era trabalhar seis meses e voltar a arranjar emprego quando o dinheiro se acabasse. Durante o tempo que estava desempregado dormia nas palhotas de pretas amigas. Ainda me lembro quando trabalhava numa cantina na zona denominada ?Benfica? perto da Malhangalene, quando cerca das 14H00 horas entra na mesma uma mulher africana muito aflita a pedir para que telefonasse ao seu marido a trabalhar como contínuo no Banco Montepio. (?Menino?, depressa, telefona nos meu marido, eu estar muito doente. Qual é o número de telefone. Não sabe, ele trabalhar no Montepio, é contínuo, se chama Bernardino.)Dirigi-me de imediato para junto da lista telefónica a procura do número do Banco Montepio Geral. Nesta altura a mesma manifestou-se que tinha muitas dores e que não aguentava. Dirigindo-me junto dela, perguntei-lhe que dor tinha. ? Dói muito o barriga. Então senta-te ali naquelas caixas que eu vou chamar uma ambulância.?No momento que tentava discar o 115, começo a ouvir o som de uma criança a chorar. A mulher semicurvada segurava qualquer coisa entre as pernas. Logo me apercebi do início de um parto. Corro para junto dela e peço-lhe para se deslocar para o armazém ali ao lado, tendo caminhado cerca de 7 metros e ao sentar-se no chão, a criança projectou-se cá para fora, rebentando com as águas. Corri para fora da cantina e gritei para duas mulheres que iam a passar para irem ajudar. De volta ao armazém, verifico que a criança já estava envolto com a capelana da mãe. Nesta altura, enquanto as duas mulheres ajudavam na continuação do parto, telefono para o 115, que me dizem não terem de momento ambulâncias disponíveis, mas prometeram que iriam envidar esforços para rapidamente ter ali uma ambulância, o que aconteceu cerca de duas horas depois. Quando a ambulância chegou, com espanto meu verifico que a própria mãe, com as maiores das calmas, carregava o filho ao colo, como se nada tivesse passado.No dia seguinte o marido da mulher muito contente veio ter comigo e disse. ?Menino, eu vem agradecer o ajuda que prestou nos meu mulher. Eu pedir desculpa por tudo que passou, ter sujado os lençóis do cama e ajudado nascer meu filho. Ele vai ter o nome deste cantina. Olhe que não foi bem assim. A criança nasceu ali no armazém porque não houve tempo prá mais nada. Hé?obrigado no mesma menino. O criança nasceu com bom saúde e amanhã meu mulher vem no casa.? Tudo me fazia lembrar, amêijoas da praia colhidas às centenas, sinfonia de cor das acácias em flor, as matinés ao domingo, o orgulho dessa cidade cheia de contrastes e apinhada de gente diferente, fazendo-me recordar os miúdos de outrora, onde aprendemos a andar de ginga e carrinhos de rolamentos aos zigzagues por passeios cimentados num quadriculado inesquecível. Desde a Polana até ao Alto-Maé, onde o Sol brilhava tão intensamente que permitia rápidos saltos à praia, passando horas seguidas dentro daquelas águas quentes.O cheiro e sabores de gente, as diversas comunidades étnicas de LM encontravam-se nas suas esquinas e lojas, passeios ou esplanadas das cervejarias, como só era possível encontrar em toda zona da cidade. Desde os comerciantes indianos, os monhés, até ao tal china daquela e doutras mercearias. As ruas principais sempre com um movimento frenético, as tardes de domingo em que as esplanadas repletas de rostos queimados e camisas abertas ouvem os relatos do Benfica enquanto as mesas se cobrem de petiscos e de bazookas? o contraste com as ruas mais secundárias, amenas e tranquilas ruas de bairro ornadas das tais acácias que, em toda a cidade, estendiam um manto vermelho pintalgado do lilás dos jacarandás? os machibombos para os subúrbios sempre repletos que se juntavam em engarrafamentos brancos e vermelho tingido do fumo preto do gasóleo, no largo do Alto Maé, fim da Avenida Pinheiro Chagas? Lourenço Marques era uma cidade fantástica. Um certo dia Perguntei ao meu irmão Adelino se queria passar a fronteira a salto para a África do Sul em virtude da nossa irmã Ester se encontrar a residir em Nelspruit. Respondeu logo que sim e encarregou-se de comprar os bilhetes na central de camionagem. Chegados ao posto fronteiriço na Vila da Namacha, contratamos um guia. Começamos a caminhada já de noite. Não nos detinham os obstáculos que encontrávamos na sua rota batida, mas não trilhada. Estávamos excitados, desejosos de passar para o outro lado. Encontramos uma passagem junto a um curso de água onde a vegetação floresce à sombra e que dividia os dois lados da fronteira. Boa! Isto está a correr bem. Mal sabíamos nós que foi apenas um docinho do destino. O guia recusou continuar a marcha para lá do arame farpado. O céu era sublime, as estrelas eram enormes. Cerca das três da madrugada instala-se uma cortina de cacimba que não deixa ver nada a nossa frente. Optamos por descansar o espírito para expulsar o medo de novos desaires. A grande mancha escura das árvores sobressai do cinzento temporal que nos rodeava. Adormecemos. A manhã estava fresca. Deixamos de ter noção da direcção que devíamos tomar. Eu teimava que era para a direita, o meu irmão para a esquerda. Vamos subir aquela montanha, talvez se aviste casas. Depois de caminhar perto de uma hora, vimos ao longe, entre a floresta aberta as primeiras palhotas. Começamos a descer. Prometemos aos residentes dinheiro se arranjassem alguém que nos transportasse até Nelspruit. Pediram algum adiantado. No meio de uns rochedos escondemos as facas de mato. Era uma forma de sonhar com uma vida melhor e de uma arte de improvisar e criar a sobrevivência. Esperamos cerca de 3 horas quando aparecem três indivíduos que dizem ter um carro na vila. Fomos com eles a pé, percorrendo cerca de dois quilómetros. Eram as primeiras casas. Entramos num estabelecimento de pronto-a-vestir onde nos disseram para esperar. Meia hora depois continuamos a caminhada e percorridos que foram cerca de um quilómetro, os mesmos indivíduos puxaram das algemas e disseram ? POLICE ?. Entramos na esquadra onde fomos recebidos por um polícia branco. Logo nos apercebemos do engano. Estávamos na Suazilândia. Como a polícia não acreditou na nossa história e tinham razões suficientes para duvidarem da nossa palavra, perguntaram se queríamos pagar a multa ou ser julgados dali a dois dias. Meu irmão decidiu pagar a multa. Fomos entregues às autoridades portuguesas. Na fronteira, a polícia pediu a um indivíduo que se dirigia para Lourenço Marques o nosso transporte. Acompanhados de um cipaio, pelo caminho contamos ao condutor a nossa história que prontamente nos disse. Vocês vão ser presentes na PIDE para interrogatório. Se nada houver contra vocês, imediatamente serão soltos. Eu estou cá fora à vossa espera para vos ajudar. Ficamos a saber que era um passador.Fomos interrogados e seguidamente colocados em calabouços separados. No dia seguinte fui chamado à presença de um PIDE. Era muito gordo. A gravata pousava-lhe sobre a barriga. Então diz-me uma coisa. O que é que ias fazer para a FRELIMO? Fiquei um pouco embaraçado com a pergunta porque não sabia o significado de FRELIMO. Voltei a contar a minha história. Queria ir visitar a minha irmã em Nelspruit mas por engano fomos ter à fronteira errada. Não acreditou. Ao quarto dia juntaram-me no mesmo calabouço com o meu irmão, onde me disse que tinha sido bastante agredido durante o interrogatório. Meu irmão era mais velho que eu dois anos.



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